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IGREJA EPISCOPAL ANGLICANA DO BRASIL
DIOCESE ANGLICANA DO RIO DE JANEIRO
22º. DOMINGO DE PENTECOSTES – 28/10/2007
Jeremias 14:7-10;19-22; Salmo 84; 2 Timóteo 4:6-8;16-18; Lucas 18:9-14
Iniciarei a homilia de hoje com uma pequena estória, retirada de uma página da Internet:
O BARQUEIRO E O "DOUTOR"
Conta-se a história de um barqueiro que ganhava a vida fazendo a travessia de viajantes num rio muito agitado.
Ele gostava do seu trabalho, o qual procurava fazer sempre com segurança e rapidez.
Certo dia apareceu um sujeito todo emproado, cheio de pose. Enquanto atravessavam o rio, o "doutor" resolveu humilhar o barqueiro com sua verborréia:
- O senhor sabe ler?
- Não, senhor, não tive a oportunidade de aprender.
- Ah, meu amigo, as maravilhas da escrita... o senhor nem sabe o que está perdendo. Posso lhe garantir que o senhor perdeu uma grande parte da sua vida por não saber ler.
O barqueiro ficou quieto, mas o "doutor" insistiu:
- Mas, fazer contas o senhor sabe, não sabe?
- Não, senhor, nunca aprendi a fazer contas.
- Ah, meu amigo, as maravilhas da matemática... o senhor perdeu mais uma grande parte da sua vida por não saber Matemática.
Neste exato momento a canoa bateu em alguma coisa e vazou água. O barqueiro fez o que pode, mas não conseguiu estancar o vazamento. Então, disse para o seu passageiro:
- "Doutor", tire os sapatos e o paletó, vamos ter que ir a nado e vamos ter que nadar bastante, pois a correnteza é forte neste lugar.
- Mas, meu amigo, eu não sei nadar.
- Não sabe nadar, "doutor"?
- Não sei, não tive a oportunidade de aprender.
- Ih, "doutor", então o senhor perdeu a sua vida toda.
http://www.pregador.com.br/ilustracoes/barqueiro.htm
No Evangelho de hoje, Jesus nos remete a uma estória semelhante a esta que acabamos de contar. Eram dois homens com vidas diferentes, valores diferentes, que, entretanto, tinham em comum a crença em Deus. Podemos fazer duas associações com a nossa própria vida, a partir dessa estória contada por Jesus.
O primeiro homem, o fariseu, fala de nós mesmos quando nos deixamos vencer pela tentação do orgulho pessoal que se cria em nós quando somos “bonzinhos”, quando fazemos tudo conforme manda a lei e nos deixamos levar pelo pensamento de que somos melhores que os outros que não fazem o que nós fazemos. Ele diz: “Ó Deus, eu te agradeço porque não sou avarento, nem desonesto, nem imoral como as outras pessoas. Agradeço-te também porque não sou como esse cobrador de impostos. Jejuo duas vezes por semana e te dou a décima parte de tudo o que ganho” (vs.11-12). Pergunto: quantas vezes não somos tentados a pensar que somos melhores que determinadas pessoas na igreja pelo fato de não faltarmos aos cultos, de contribuirmos regularmente, de cumprirmos à risca os preceitos da nossa doutrina? O fariseu realmente fazia todas aquelas coisas mencionadas em sua oração. Ele cumpria certinho todos os preceitos da religião judaica em relação aos seus ritos. Mas isso não basta. Não basta irmos à igreja todos os domingos, entregarmos o dízimo todos os meses, jejuar várias vezes na semana, orar várias vezes ao dia etc, se o nosso coração está cheio de orgulho e vaidade. Se usamos isso para nos autojustificar diante de Deus, estamos fazendo um sacrifício inútil. Deus quer de nós misericórdia e não sacrifícios formais (Os 6.6). É muito bom e importante que freqüentemos a igreja, ao menos todos os domingos, oremos e jejuemos, entreguemos nossas contribuições para a manutenção do templo etc, mas infinitamente superior é termos um coração quebrantado diante de Deus. Isso é o que Ele espera de nós: um coração quebrantado, misericordioso.
O outro homem da estória, também somos nós. Nos equivocamos muito quando exaltamos a figura deste em detrimento da figura do fariseu. Ambos eram pessoas com qualidades e defeitos bem claros, conforme essa estória. Se a atitude do fariseu foi condenada por Jesus por ele se achar melhor que as outras pessoas, acima do bem e do mal, também aprendemos com ele que devemos ter mais zelo com as coisas de Deus. Não podemos ser relapsos na construção do Reino, no nosso crescimento espiritual. Da mesma forma, se o publicano foi exaltado por Jesus por sua atitude de humildade diante de Deus, pela sua coragem em confessar-se pecador e por pedir perdão pelos seus pecados, vemos nele uma pessoa com uma vida pregressa condenável. Os cobradores de impostos eram odiados pelo povo, pois viviam da exploração através das altas taxas que cobravam para o Império Romano ganhando altas comissões por esse trabalho. Não podemos exaltá-lo sem que antes nos lembremos que “seu ganha pão” feria e fere os valores do Reino de Deus. Muitas vezes a igreja é criticada, e penso com razão, por exaltar em demasia a vida pregressa de pessoas que antes de aderirem à proposta de Jesus, levavam uma vida completamente não condizente com os valores do seu Reino. É comum vermos faixas anunciando: “venham assistir ao testemunho do Sr. Fulano de Tal, ex-traficante, ex-homicida, ex-viciado etc”. Isso não deveria ser motivo de marketing, mesmo para mostrar o poder de Deus (?) na vida de quem quer que seja. Se realmente um dia fomos recuperados dessas e de outras distorções, deveríamos ter um pouco mais de cuidado em anunciar essas coisas, pois os de fora comumente dizem generalizando, por conta dessas propagandas equivocadas: “nas igrejas não tem ninguém que tinha uma vida normal, são todos ex-alguma-coisa...” Precisamos ser conhecidos pelas nossas boas ações e não pelas más, mesmo que estas sejam coisas do passado. Jesus levou sobre si as nossas transgressões, portanto, não temos que ficar rememorando-as, lembrando como motivo de orgulho, mesmo que seja para fins de evangelismo, pois acaba se tornando um “antievangelismo”. O publicano tem seu mérito ao mostrar um espírito quebrantado diante de Deus em uma atitude de arrependimento, de contrição, de submissão. A partir daquele momento, ele deveria se tornar uma nova criatura (2 Co 5.17) e, uma nova criatura começa tudo de novo. O passado é passado. Devemos aprender com ele, mas nunca exaltá-lo desmesuradamente, pois muitas vezes, ele deveria até ser motivo de vergonha para nós.
Pois bem, estamos diante da estória de dois seres humanos, tão humanos quanto nós. Com defeitos e qualidades, como nós. Temos muito o que aprender com eles, pois são figuras de nós mesmos. Que Deus nos dê o discernimento necessário para escolhermos e cultivarmos o que há de melhor em ambos.
Revda. Jocinéa Saldanha Perpetuo
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